Prof. Rodrigo Antonio Chaves da Silva
Contador
Não há dúvida que uma das poucas doutrinas que alcançou o frenesi no mundo inteiro, a multiplicidade de adeptos, uma adoção quase que primordial de muitos acadêmicos profissionais, a adesão até dos mais cultos, destarte, simultaneamente, um desconhecimento dos seus princípios e estruturas foi a doutrina marxista, tema das ciências sociais, filosofia, economia, gestão doméstica, e outras áreas de conhecimento.
Amada por muitos, elogiada por alguns, todavia, sendo a perene constante da Universidade brasileira, ela ainda continua a alcançar adeptos e está embutida na maioria dos partidos políticos. As aplicações da doutrina foram nefastas no campo econômico. Mas é a querida teoria dos partidos esquerdistas. Certa monta, numa análise simples de alguns poucos estudiosos, percebeu-se que a maioria dos partidos brasileiros tinham um dedo de tal doutrina, de tal maneira, que o desenvolvimento de um estatismo, ou um Estado muito forte e intervencionista, é tido por muitos como o diapasão das políticas públicas e ações sociais.
Muitos são marxistas e não sabem o que estão falando ou estão fazendo. Não conhecem as bases. Às vezes mentem: “eu não sou”. Mas a agenda é igual à dos conceitos marxistas. Outros realmente erram sem querer. A verdade tem que ser dita. Muitos defendem os princípios marxistas e não sabem disso, e nem conhecem a origem dessas mesmas definições. Enfim, é a doutrina que mais se tem misticismo. Tratada até como caráter messiânico com posições que não batem no seu aspecto lógico interno, e muito menos externos. Todavia, há que se ter estudos sérios sobre tal conteúdo, em matéria política e social.
No aspecto externo falamos da lógica de sua aplicação, e no aspecto interno da sua estrutura gnosiológica.
No aspecto externo são várias as versões que floreiam o conteúdo marxista, dizendo que é uma utopia que escolhe um mundo sem patrões e nem empregados. Outra diz que favorece a um mundo igual. Alguns comentam que ela vencerá a desigualdade social. Outra versão é que ela é igual aos Evangelhos de Nosso Senhor Jesus Cristo. Entre as posições mais apaixonadas todas as supra citadas realmente não têm coerência, nem mesmo numa análise devota, e apaixonada. Ou seja, não é marxismo. Como diziam na época viva de Marx, e este se expressava: “se isso é marxismo eu não sou marxista!” é o mesmo que vemos acontecer nos dias atuais.
O que está escrito nos seus “Manuscritos Econômico-filosóficos”, em sua obra “O capital”, e no “Manifesto comunista” não é realmente igual a todas as versões acima relatadas, ao contrário, como dizia um grande marxista nacional que é José Paulo Netto (https://www.youtube.com/watch?v=2WndNoqRiq8), a obra de Marx é uma obra de crítica, de produção de uma teoria social, e neste contexto deve ser entendida. Se faz a crítica, então, se quer a revolução. Ou seja, a mudança drástica das coisas. Por tal, a melhor forma de entender o trabalho marxista é na visão crítica, e não necessariamente na visão messiânica, até porque, os efeitos da aplicação do modelo foram não somente desastrosos mas iguais a um tipo de satanismo social, que vemos claramente na história. Não houve salvação da sociedade. Mas perda. É no contexto crítico que enxergamos a teoria, cuja aplicação direta gerou as mazelas que hoje conhecemos.
Destarte, não podemos entendê-la mesmo sendo utópica, ou como a utopia da utopia do paraíso. Até porque Marx não era cristão, era ateu, e militante, ou seja, contrário a toda e qualquer manifestação religiosa. Não esqueçamos que é dele a célebre frase “a religião é o ópio do povo”. Porém, a droga, a aberração sexual, e os danos ao homem não o são. A única ferramenta que liberta o homem das escravidões do seu corpo é a religião, esta é virtude que o leva a Deus, todavia, aqui há uma afirmação baseada em pura inversão. Ele não era apenas ateu mas anti-religioso. O chamado ateu militante que quer destruir a religiosidade. O que em dotes normais faz mal até ao psiquismo.
Todavia, não é este aspecto externo que vamos favorecer em nosso tratamento, mas, ao aspecto interno de sua própria estrutura, não com base nos “manuscritos econômico-filosóficos”, muito menos na sua obra sobre “o capital”, mas no “Manifesto Comunista” mesmo, onde se lê:
“Além disso, existem verdades eternas, como liberdade, justiça etc., que são comuns a todas as condições sociais. O comunismo quer abolir as verdades eternas, suprimir a religião e a moral, em vez de lhes dar uma nova forma; portanto, ele contradiz toda a evolução histórica anterior” MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. São Paulo: Expressão Popular, 2008. P. 43. Grifos nossos.
Entendamos bem a condição que os dois autores falam, sobre a extinção das “verdades eternas”, que não estão apenas no campo social, ou espiritual. Estão no campo lógico. Ora, as “verdades eternas” são as leis da ciência. Então, abolir as verdades eternas é DESTRUIR AS LEIS DO CONHECIMENTO. Os ideais de liberdade, justiça, respeito, são leis e normas eternas. O amor também. O casamento, a vida, a morte, a multiplicação das espécies. As leis da Física, da Química, da Contabilidade, do Direito, são leis eternas também. Está claro, quer a doutrina marxista destruir as verdades eternas.
Veja claramente que há uma defesa sobre a extinção das leis.
Todavia, esta posição é contradita por Engels claramente em sua obra sobre a dialética materialista, explicada por Leôncio Basbaum:
“Diz Engels que as leis da dialética são tiradas da história da natureza e da história das sociedades e se reduzem no essencial às três seguintes:
- A lei da transformação da quantidade em qualidade, e inversamente;
- A lei da interpenetração dos contrários
- A lei da negação da negação” (BASBAUM, Leôncio. O processo Evolutivo da História. São Paulo: Edaglit, 1963, p. 47)
A primeira lei diz respeito à mutação das coisas, um valor pode ser ligado a um bem, e assim por diante. Não há valor sem a coisa.
A segunda lei diz respeito à ligação impossível de ser desfeita da relação de causa e efeito dos fenômenos, portanto, o que é contrário, ou mesmo é efetuado são ligados, como ativo e passivo.
A lei da negação da negação seria o mesmo que a lei da afirmação, é um tipo de lei cristã, não sabemos porque ele defende esta lei, já que é ateu como Marx, ou seja, aqui defende a mesma lógica dos escolásticos, que no geral, a filosofia da negação e da crítica não consegue superar a da lógica e da afirmação. É uma lei também divina e cristã. Deus sempre existiu e logo não é possível haver o nada.
Para quem lê esta afirmação última, percebe-se claramente que qualquer cristão ficaria mais vivo, com o texto do materialista.
Ora, a defesa de Engels mesmo sendo ateu apenas sustenta a religião e a escolástica. Não estamos dizendo que ele o seja. Mas que ele o fez por erro de afirmação, fez, mostrando que é insustentável a um ateu defender aspectos da economia que não são condizentes com as leis da ordem e do cosmo, e sem admitir que há uma constante. Assim o próprio Basbaum interpela nos textos afirmando haver leis insofismáveis na história.
Comparando a afirmação dele, com Marx no manifesto, com a posterior, vemos claramente que há uma CONTRADIÇÃO.
Portanto, há leis que ele diz que existem em todas as ciências, normalmente, e outras ligadas à ordem que Deus criou.
É impossível, pois, a Marx, e a ele mesmo, Engels, favorecer a uma economia tal qual pensavam, numa taxação progressiva e excludente das leis eternas e imutáveis, porque isso incha o Estado e destrói a sociedade livre.
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Cabe dizer o que é uma lei.
Terranova, Maritain, Chalaye e outros grandes filósofos, diziam que a lei é uma verdade eterna e geral, ou seja, uma forma a qual explica a teoria na prática, na ocorrência dos fenômenos.
A lei, então, não pode ser definida como um elemento a ser derrubado, todavia, o contrário, a ser descoberto, atestado, defendido, revelado, e exaltado.
Portanto, desta maneira entendemos claramente que houve uma CONTRADIÇÃO.
O princípio da contradição diz muita bem: uma coisa não pode ser e deixar de ser ao mesmo tempo.
Se eu falo que algo é, e ele deixa de ser, é porque há uma contradita, isto é, eu favorece algo contrário ao que afirmo.
Se eu quero afirmar uma coisa, mas, digo o contrário, tenho um contraditum verbum.
Pois bem, Engels se contradiz, e contradiz a Marx claramente.
Se ele diz que não há leis imutáveis, como ele defende as leis da dialética, e leis realmente criadas por Deus, como a da negação da negação?
É muito claro: a dialética como o processo metodológico de discussão para encontrar uma verdade, só o pode ser ou concretizada por meio de leis.
Aliás, tudo o que é factual e tudo o que é sucessivo a um acontecimento, deve ser, pois, suscetível a leis.
Como dizia Lopes de Sá, a lei é uma explicação prática da teoria, o entendimento logico de como acontece os fatos.
Se os dois escrevem que as leis devem ser derrubadas, como que aparece “as leis” logo depois por Engels?
Então ele contraria a Marx, discordando dele, pois, reconhece a existência das mesmas normas de conhecimento, na posição da dialética.
Ao mesmo tempo, se ele fala assim, ele contradiz a si mesmo.
Numa análise séria podemos dizer que há uma quebra do princípio da contradição e ao mesmo tempo, uma clara negação do que se quer predizer, esta é uma das falhas metodológicas do marxismo, que é afirmar algo que não se sustenta, nem com os sequazes e ao mesmo tempo, nem pelo próprio método, porque se existe algo criado ou na realidade concreta ela é sujeito às leis criadas por Deus, ou pelo autor da ordem.
Sem dúvida, na análise séria percebemos isso, e longe da versões devocionais ou apaixonadas, podemos considerar mais coisas, embora paremos por aqui em uma observação muito simples.